O “santo remédio” contra o Coronavírus é real ou mais um boato? O que diz a ciência sobre a hidroxicloroquina e a cloroquina?

Muito tem se falado de um medicamento que teria resultados milagrosos contra o Coronavírus: a cloroquina ou a hidroxicloroquina, combinada com a Azitromicina. Essa divulgação começou com o presidente dos EUA, Donald Trump, e a receita ganhou um entusiasta, o presidente Jair Bolsonaro. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou um protocolo de uso do medicamento. A Rede Record de Televisão tem divulgado matérias sobre o sucesso desse tratamento e até a Folha de São Paulo publicou uma reportagem sobre possíveis resultados positivos. Estaremos frente a uma virada na pandemia devido a uma grande descoberta científica? Ou diante de uma das mais perigosas fake news de todos os tempos?

Antes de fazermos maiores considerações, vamos chamar a atenção para um dado: o número de mortes no mundo continua subindo. Será que se houvesse sido de fato descoberta uma cura para a COVID-19 haveria tanta gente morrendo na Itália, na Espanha, nos EUA? Não seria só dar esse remédio (que existe, está disponível) e curar todas as pessoas? Não parece um tanto contraditório?

Sim, isso já deveria ser suficiente para as pessoas botarem um gigantesco pé atrás com essas notícias, mas sigamos…

Em primeiro lugar, vou esboçar aqui rapidamente como se testa um medicamento. Para isso é preciso explicar um curioso fenômeno denominado “efeito placebo”. É um fato científico que o simples fato de algumas pessoas acharem que estão sendo medicadas faz com que elas melhorem. Então qualquer teste de medicamento segue um protocolo em que metade das pessoas recebe o medicamento e metade recebe um falso medicamento, uma pílula de açúcar ou outra coisa sem efeito. Evidentemente que as pessoas não sabem se estão tomando o remédio verdadeiro ou o falso (o chamado placebo). Esse tipo de teste é chamado de teste cego. Mas se o pesquisador sabe quem está tomando o remédio e quem está tomando o placebo, pode influenciar na forma do atendimento, dando mais atenção a quem toma o remédio de verdade, e isso pode influenciar também nos resultados. Então os testes são feitos sem que nem o médico, nem o paciente, saibam quem está tomando o remédio e quem está tomando o placebo. Esse controle está sob poder de outro pesquisador que não interagem com os pacientes. Este é o teste duplo cego. Aí então, após comparar os resultados obtidos, se os pacientes que tomaram o remédio verdadeiro apresentarem um percentual de melhora estatisticamente significativo em relação aos que tomaram o placebo, isso indica que o medicamento funciona. Mas ainda são necessárias mais pesquisas: com um número maior de pacientes, com uma variedade grande de perfis (homens/ mulheres, jovens/ idosos, com/sem doenças preexistentes etc.).

O primeiro estudo publicado sobre o tratamento à base de hidoxicloroquina para a COVID-19 não foi duplo cego, nem cego. Não houve escolha aleatória das pessoas que fizeram parte do exame. Poucas dezenas de pessoas foram medicadas e apresentaram melhora. Ou seja, não há controle rigoroso que possa correlacionar a melhora com o uso da medicação. Os pacientes poderiam ter melhorado sem ela. Podem ter melhorado apesar dela. Pode ter sido efeito placebo. No máximo é uma pista, uma sugestão, para ser feito um estudo rigoroso. Existem muitas críticas sobre a metodologia utilizada nesse artigo, além de uma reputação – no mínimo duvidosa – do líder do grupo de pesquisas (veja links ao final desse texto).

Em um estudo posterior, desenvolvido na China, seguindo os protocolos de teste duplo cego, comparação com placebo etc., o grupo que tomou placebo teve resultados melhores do que o que tomou hidroxicloroquina. Se, por um lado não é uma resposta negativa definitiva, pois o número de pacientes testados também foi pequeno, é, ou deveria ser, no mínimo, um grande freio no entusiasmo propagandeado da “cura mágica”.

Dois especialistas do Hospital Sírio-Libanês fizeram uma revisão sistemática da literatura já disponível sobre o tema e a conclusão foi:

Com base nos achados nesta revisão sistemática rápida, a eficácia e a segurança da hidroxicloroquina e da cloroquina em pacientes com COVID-19 é incerta e seu uso de rotina para esta situação não pode recomendado até que os resultados dos estudos em andamento possam avaliar seus efeitos de modo apropriado.

Não obstante, os vendedores de ilusão continuam operando. Isso tem gravíssimas consequências. Esse medicamento é amplamente usado para tratamento de doenças como lúpus e artrite reumatoide, doenças autoimunes que não podem ter o seu tratamento interrompido. Mas, devido às falas irresponsáveis de Trump e Bolsonaro, houve uma corrida às farmácias para comprar o medicamento, um aumento de 17.633% na procura, segundo apurou a repórter Amanda Audi, do site The Intercept. Isso fez com que os pacientes que realmente precisam da mesma ficassem sem, sujeitando-se a graves consequências pela interrupção do tratamento. Já entre os que compraram, há até aqueles que morreram pelo uso do medicamento, que tem efeitos colaterais sobre o coração, os olhos etc. Além disso, mesmo no primeiro estudo, a proposta era usar a hidroxicloroquina para tratar pacientes doentes, não como preventivo. Não foi proposto que o uso do remédio impediria o contágio.

Mas não é só isso. Ao se disseminar a notícia de uma falsa cura, isso faz com que as pessoas tendam a abandonar a única forma concreta que existe hoje de combater a pandemia: o isolamento social. Afinal, como o presidente Jair Bolsonaro disse, se pegar, é só tomar o remédio. Com isso, Jair Bolsonaro comete um atentado contra a saúde pública, fomentando um verdadeiro genocídio.

Mas, e nos casos graves, não vale a pena arriscar? Bom, se o doente for informado claramente de que não existem resultados conclusivos da eficácia, que existem possíveis efeitos colaterais graves, que é um tratamento experimental e ele, de maneira consciente, aceitar participar como cobaia desse estudo, tudo bem. Mas mesmo assim, é preocupante devido a falta de alguma indicação inicial mais sólida.

Não podemos deixar de chamar a atenção também para a irresponsabilidade dos meios de comunicação ao divulgar notícias sobre a cloroquina. A evidência anedótica de que algumas pessoas tomaram e se recuperaram não tem valor algum. Quem garante que se recuperaram devido ao medicamento? Muitas pessoas não tomaram e se recuperaram. Outras tomaram e morreram. Divulgar matérias desse tipo, sem nenhum rigor científico, desinforma a população e tem um grande impacto negativo que será medido em vidas. Muitas milhares delas.

Não se trata de “ouvir o outro lado”. Existe o método científico e o achismo. Não se contrapõe estudos rigorosos a “opiniões”. Não se faz debate entre um geofísico ou um astrônomo e um terraplanista. Entre um médico e um antivacina. Disseminar posturas anticientíficas com o mesmo peso das posições dos especialistas, ainda mais em um período de grave pandemia, é uma inconsequência. Já basta o presidente. Aliás, já basta mesmo! Fora Bolsonaro genocida! E leva o Mourão junto!

Raphael Furtado é físico, pesquisador da área de Cosmologia, vegetariano, pai de duas filhas e gosta de café e de conspirar para salvar o mundo.

Texto gentilmente cedido pelo autor e publicado originalmente em: https://www.balaiada.com.br/4904/

Anexos, para mais informações:

O artigo que Trump e Bolsonaro citam: https://www.mediterranee-infection.com/hydroxychloroquine-and-azithromycin-as-a-treatment-of-covid-19/

O artigo dos pesquisadores chineses: CHEN J, et al. A pilot study of hydroxychloroquine in treatment of patients with common coronavirus disease-19 (COVID-19). J Zhejiang Univ (Med Sci) 2020, Vol. 49 Issue (1): 0-0 DOI: 10.3785/j.issn. (observação: nessa pesquisa não foi usada a associação da hidroxicloroquina com a azitrominicina, que supostamente seria mais eficiente)

Uma análise crítica sobre o primeiro artigo: https://www.mediterranee-infection.com/hydroxychloroquine-and-azithromycin-as-a-treatment-of-covid-19/

Mais denúncias sobre o artigo inicial: https://forbetterscience.com/2020/03/26/chloroquine-genius-didier-raoult-to-save-the-world-from-covid-19/

Revisão literária feita por médicos do hospital Sírio-Libanês, link nessa página, junto com vários outros artigos: https://www.sbmfc.org.br/medicamentos-no-combate-ao-coronavirus/

Uma excelente fonte de informações, com um doutor em virologia: https://www.youtube.com/results?search_query=oatila

Publicado por Jornal Crítica Espirita

O Jornal Crítica Espírita visa realizar uma leitura crítica da sociedade e do pensamento humano, pelas lentes do espiritismo, e do próprio espiritismo, pelas lentes da sociedade e do pensamento humano. Contato: criticaespirita@gmail.com

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